Sobre “mal que se quis”
Aquele dos contos muito loucos, por vezes íntimos, algumas vezes críticos (que eufemismo!) e, no geral, revelador de mentes que se enrolam sobre si mesmas ao tentar compreender os eventos que acontecem ao seu redor e criam novas perspectivas que parecem invisíveis a tantas outras? Eufemismo dizer que algumas vezes são críticos, já que isso significa apenas que nem todos os contos são declaradamente críticos.
Eu adorei o “Joça”. Esse conto apresenta uma confusão do íntimo da psique de uma pessoa já meio perturbada, mas que ainda vê alguma cor na vida. Gostei porque não pude imaginar que “Joça” era uma pintura. Que fantástica imaginação! No processo de escrita, provavelmente esse foi o ponto de partida, mas o leitor não pode saber disso. E se, no mundo da criação, a autora é o “Joça”, temos a pergunta: quem é a pessoa que tanto ama o "Joça"?
A história é quase uma inversão do amor idealizado Romântico! Que loucura literária! As qualidades do amado, mais do que nunca, são postas unicamente pelo amante, são vistas unicamente pelo amante em seu mundo particular. É um amor pelo vazio, pelo desconhecido, pois não se pode amar dessa forma uma pintura. Ou pode-se?
É possível amar qualquer coisa e, nesse caso, o nada também é uma coisa.
Contraditório, mas real. Afinal de contas, o amor é um sentimento. E o que é um sentimento? Em geral, não se ama o vazio, mas um ideal. O “Joça” é o vazio, já não é nada e isso sela seu destino de ser apagado. Mas, para o amante, o “Joça” é um ideal! Prontinho para amar. Só que existia a imagem dele, e era nessa imagem que o personagem focava seu amor.
Por isso eu digo que o livro fala sobre consciências enrolando-se sobre si mesmas para tentar entender e afetar os eventos que à sua volta acontecem e que seu íntimo modificam. Algo assim. Meu Deus, eu estudo literatura e isso está me afetando! Surge uma análise literária de uma conversa de Messenger! Nesse contexto, chama-me a atenção a citação de Suelen: Enquanto grito o silêncio mudo. O grito silencioso... Isso me faz lembrar uma das minhas pinturas favoritas (se não A favorita): O Grito.
Como a capa do livro “mal que se quis”: silêncio, um quadro congelado de um grito desesperado, final. E a capa ainda tem a figura de cabeça para baixo, o que dá um toque a mais e volta à questão das mentes enroladas. Viradas. Enlouquecidas. Enfim, as artes plásticas não são minha área, mas eu diria que a cor branca, normalmente associada a paz e tranquilidade, acaba contribuindo para enfatizar o desespero da imagem.
E as fotos dos autores comemorando no fim do livro também permitem uma leitura interessante em associação com o título da obra. Algo como "sei que está errado, posso estar me ferrando, mas, quem se importa? Estou curtindo e bebo a isso!" É uma interpretação possível. Só que achei pobre. Sou um crítico pobre.
Adendo da escritora do livro: O Erwin ainda vai encontrar uma interpretação à altura de sua capacidade intelectual. Nós tememos esse dia.
Segunda-feira, Novembro 02, 2009
Quinta-feira, Outubro 29, 2009
Tribo
Amigos de alguns dias, sentados, olham-se a si, todos vestidos com trapos tão estranhos, tão descoordenados, que parecem fazer parte do último suspiro da moda. Indecisos, sobre o que dizer, se dizer, se calar, bebem. Um deles - o com a grande cicatriz no braço direito, aquele que parece um urso, tanto pelo, tanto tamanho – assoa o nariz no guardanapo que lhe serviram. Dois riem do descomposto homem, outros torcem suas faces em caretas escrotas. Alguém os serve de canapés, enche seus copos. É inicio da noite, e até amanheça, todos estarão bêbados e entretidos com a musica ambiente. Todos saberão as letras das canções que ninguém conhece. Logo, todos serão tão amigos quanto se se conhecessem por toda a vida.
Aquele rapaz de sorriso afável, resmunga afinado, aquém dos outros. Uma mocinha de cabelo picotado vermelho, unhas com esmalte descascado, balança no ritmo, punhos entre as coxas. Conforme a estranheza habitual é absorvida do ambiente, a cantoria murmurada ganha tons show de rock, e performances exaltadas derrubam copos; derrubam corpos. A manhã aquece-os e a mente desperta incerta, sem lembrar o que se estava fazendo ali. A noite eles voltam.
Aquele rapaz de sorriso afável, resmunga afinado, aquém dos outros. Uma mocinha de cabelo picotado vermelho, unhas com esmalte descascado, balança no ritmo, punhos entre as coxas. Conforme a estranheza habitual é absorvida do ambiente, a cantoria murmurada ganha tons show de rock, e performances exaltadas derrubam copos; derrubam corpos. A manhã aquece-os e a mente desperta incerta, sem lembrar o que se estava fazendo ali. A noite eles voltam.
Quinta-feira, Outubro 08, 2009
Nada para além do adeus
O olhar exigia mais que as palavras podiam expressar. Olhei a parede, que encarar qualquer coisa parecia mais certo que responder. Eu engasguei com meu suco, mas não foi o suco que pôs aquele nó entalado na minha garganta.
Canta alguma coisa.
O que?
Sei lá, acompanha essa música que está tocando.
Eu não sei cantar, e ela sabe disso, como sabe do índice de radiação solar de hoje, meu índice de massa corpórea, o índice de desmatamento na região amazônica. Sou incapaz de pensar em algum índice que ela não tenha conhecimento. É como uma degustadora de fatos.
A música que tocava era Lanterna dos Afogados. Um clássico de alguma adolescência, talvez da do dono do bar. Da minha, não estava certo. Eu ainda tinha seus olhos sobre mim, aquele peso que, um lado masoquista da minha mente, um lado que aprendi a seguir como arremedo da razão, ficava feliz de pensar como sendo a última vez que sentia.
Canta essa.
Eu não sei!
Sabe. Claro que sabe.
Só porque todos sabem.
Por isso não cantei. Quando disse adeus, eu respondi com um tchau, que era uma epítome de tudo que eu não podia dizer. Agarrei-me na conta fazendo dela meu salva-vidas. Ela sairia pela porta, eu estaria lá, praguejando contra o tempo chuvoso para o dono da bar. Ele me diria adeus, volte sempre, eu nunca mais voltaria. Poderia seguir meu caminho, apertando o casaco no corpo, sentindo a gélida chuva fina, a gélida partida dela. E só.
Ironia da vida, eu estaria feliz todas as vezes que ela entrasse em contato. Sempre parecendo animada com minha felicidade, eu com a dela, mas seria mentira. Porque assim que ela desligasse, os problemas tomariam minha mesa, eu não veria soluções à frente, como nunca vi. Choraria todas as terças, quando por acaso lembrasse que ela foi embora. Só que praticamente nunca lembraria.
Mas passei o cartão, e ela estava lá, me esperando; ofereceu carona, ajeitou meu cabelo que estava na frente dos meus olhos, pondo-o de qualquer jeito atrás da orelha. Agradeci, só porque gritar seria escandaloso. Tudo que esperava era estar enclausurado novamente em meu apartamento, para gritar durante o tempo que me conviesse, que eu nunca amei você. Gritar até a garganta doer, minha goela arder, eu acreditar.
Não houve uma resposta a pergunta, sentirá minha falta?. No futuro, eu sabia, seria difícil sentir. Ficaria cada vez mais frio e alheio, e não me enganei. Ao fechar a porta de seu carro, sorri sem pesar e sem sinceridade. Olhei o carro partir, se demorando para virar a esquina. Depois, ao entrar em casa, puxei o telefone da tomada e desliguei o celular. Só os religuei passados dois dias de sua viagem.
Canta alguma coisa.
O que?
Sei lá, acompanha essa música que está tocando.
Eu não sei cantar, e ela sabe disso, como sabe do índice de radiação solar de hoje, meu índice de massa corpórea, o índice de desmatamento na região amazônica. Sou incapaz de pensar em algum índice que ela não tenha conhecimento. É como uma degustadora de fatos.
A música que tocava era Lanterna dos Afogados. Um clássico de alguma adolescência, talvez da do dono do bar. Da minha, não estava certo. Eu ainda tinha seus olhos sobre mim, aquele peso que, um lado masoquista da minha mente, um lado que aprendi a seguir como arremedo da razão, ficava feliz de pensar como sendo a última vez que sentia.
Canta essa.
Eu não sei!
Sabe. Claro que sabe.
Só porque todos sabem.
Por isso não cantei. Quando disse adeus, eu respondi com um tchau, que era uma epítome de tudo que eu não podia dizer. Agarrei-me na conta fazendo dela meu salva-vidas. Ela sairia pela porta, eu estaria lá, praguejando contra o tempo chuvoso para o dono da bar. Ele me diria adeus, volte sempre, eu nunca mais voltaria. Poderia seguir meu caminho, apertando o casaco no corpo, sentindo a gélida chuva fina, a gélida partida dela. E só.
Ironia da vida, eu estaria feliz todas as vezes que ela entrasse em contato. Sempre parecendo animada com minha felicidade, eu com a dela, mas seria mentira. Porque assim que ela desligasse, os problemas tomariam minha mesa, eu não veria soluções à frente, como nunca vi. Choraria todas as terças, quando por acaso lembrasse que ela foi embora. Só que praticamente nunca lembraria.
Mas passei o cartão, e ela estava lá, me esperando; ofereceu carona, ajeitou meu cabelo que estava na frente dos meus olhos, pondo-o de qualquer jeito atrás da orelha. Agradeci, só porque gritar seria escandaloso. Tudo que esperava era estar enclausurado novamente em meu apartamento, para gritar durante o tempo que me conviesse, que eu nunca amei você. Gritar até a garganta doer, minha goela arder, eu acreditar.
Não houve uma resposta a pergunta, sentirá minha falta?. No futuro, eu sabia, seria difícil sentir. Ficaria cada vez mais frio e alheio, e não me enganei. Ao fechar a porta de seu carro, sorri sem pesar e sem sinceridade. Olhei o carro partir, se demorando para virar a esquina. Depois, ao entrar em casa, puxei o telefone da tomada e desliguei o celular. Só os religuei passados dois dias de sua viagem.
Segunda-feira, Setembro 21, 2009
Branco
Caminhou descompassada em direção a boca de cena: o tapete branco. Parou intuitivamente esperando algo, que não atinava o que até ouvir os violinos tocarem a marcha nupcial. Agora, em rima com a melodia da canção brega, com o buquê apertado entre as mãos úmidas na altura do peito, ela foi - circunspecta e firme, adiante.
Era só um passo atrás do outro. E outro. E mais um.
E... Arriou o vestido, deixando entrever as pernas brancas e a sapatilha vermelha. Mágico de Oz, se a mágica existe, era o que acreditava. Viu os olhares despreparados dos seus convidados, tentando absorver a imagem. O que aconteceria à seguir? Bem, nem ela sabia.
Minutos suavam entre seus dedos.
Seus dedos. Suas crenças. Suas escolhas.
Virou-se de supetão, girando as vestes. A lembrança latejava em sua mente, fazendo bater mais rápido o coração. E um passo atrás do outro, cada vez mais rápido, ela saiu de lá.
O lá era branco como suas vestes, branco como as flores que adornavam seus cabelos, branco como o espaço vazio em sua alma desde que o perdera.
Mas ele também estava correndo.
Era só um passo atrás do outro. E outro. E mais um.
E... Arriou o vestido, deixando entrever as pernas brancas e a sapatilha vermelha. Mágico de Oz, se a mágica existe, era o que acreditava. Viu os olhares despreparados dos seus convidados, tentando absorver a imagem. O que aconteceria à seguir? Bem, nem ela sabia.
Minutos suavam entre seus dedos.
Seus dedos. Suas crenças. Suas escolhas.
Virou-se de supetão, girando as vestes. A lembrança latejava em sua mente, fazendo bater mais rápido o coração. E um passo atrás do outro, cada vez mais rápido, ela saiu de lá.
O lá era branco como suas vestes, branco como as flores que adornavam seus cabelos, branco como o espaço vazio em sua alma desde que o perdera.
Mas ele também estava correndo.
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