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sexta-feira, setembro 16, 2011

Um sorriso triste

Ela tinha um sorriso triste. Você conhece pessoas assim e deve achá-las boas, simpáticas, solidárias. Você se pergunta o que faz uma pessoa sorrir, quando as vê; tem tanta dor em seus olhos, seus corpos parecem sofrer muito mais a gravidade, mas elas continuam sorrindo. E você corresponde o sorriso, você já sofreu um dia mas sabia que tinha que passar, que iria passar, pensava em tempos mais amenos e sorria para os outros no trabalho. Dizia bom-dia e não o tinha. Mas o sorriso triste dela era diferente, foi o que notei sem querer notar.

Ela estava sentada numa mesa perto da minha num café qualquer, numa manhã ordinária. Notei que tinha um livro meu em mãos, foi isso que me chamou atenção. Era uma moça comum, sem esforço. Parecia igual a tantas, mas estava lendo um livro que tinha meu nome na capa, e minha foto na orelha, então quando ela me olhou imaginei que me reconheceria. Não pareceu. Ainda que o olhar viesse acompanhado daquele sorriso triste.

Eu sorri de volta, um tanto entusiasmado, mas o contato não foi mantido. A moça voltou ao seu livro, ao meu livro, e com essa boa sensação de ainda estar em seus olhos pedi meu café.

terça-feira, abril 12, 2011

Tão igual quanto…

Igual a todo mundo. Era como era, como sentia. O mesmo pão com margarina, o mesmo café recém-feito – as mesmas havaianas último modelo, que todo mundo usa. Uma tendência para gostar de novela (mesmo que mantivesse o aparelho de TV desligado, como uma auto-privação necessária). E a mania de dizer que lia livros. Muitos livros. Todos os best-sellers da temporada.

Era peculiar em sua definição de si como cópia carbono das cópias carbono de toda a humanidade. Não via o que merecia além – de? – do que outros, o que a fazia de uma humildade irritante.

Então ele pergunta:

- O que a faz especial?

Ela responde:

- A capacidade de me pôr em meu lugar.

Ele resolve arriscar:

- Podemos nos ver hoje, depois das dezenove horas?

Ela saltita na cadeira, animada como nunca:

- Claro, Pegador36!

terça-feira, junho 01, 2010

Solidão

Ali, naquela meia-curva, a solidão está entediada. Começou vertendo na corrente das lágrimas - que a dor é apressada e chega antes - mas nem pausa, já estava. Fria, cortante. E logo um eco acompanhava seus passos, sempre ecos acompanham-na, e – malditos sois! - a solidão nunca está sozinha. Ironia vem nas embalagens do concorrente - a saudade que ocupa o vazio dos espaços - mas não há vazio para a solidão, só eco.

Não foi porque ele foi embora - ele, depois de muitos, todos que ela implorou que ficassem - nem por de repente perceber que a cortina precisava de lavagem e lembrar que não tinha o telefone da lavanderia que usavam; foi porque um pássaro entrou pela janela aberta cantando e percebeu que não podia determinar a ultima vez que ouvira uma musica. Pense que nessa hora - a realidade estuporando-lhe - a solidão já estava lá, passiva. Um tanto amarga. Precisando que esta era igual as outras vezes, para essa mesma mulher, nesta mesma casa, com o mesmo tipo de lamentação usual.

"Você não se envergonha", teria dito a solidão, se falasse. O que fora perdido na vida era o tempo, não os homens. Por esta necessidade de ser amada. Se o amor fizesse o ser humano, pensaria a solidão, ela não existiria. Entre novos soluços, atrasados em semanas, fraquejando entre as novas cortinas - como estava a moça - a solidão percebeu um átimo de mudança. E esperou entre os lençóis amarfanhados de poeira e tristeza o resultante.

Ela acelerou o carro e bateu na mureta de segurança. Os paramédicos chegaram rápido, questionando o que a faria bater ali, logo no inicio da curva. Com o carro destruído e a dignidade estraçalhada, ela, assim como a solidão, pensaram que ninguém viria em seu socorro que não órgãos de saúde. Ela, agastada, sequer chorou. A solidão, entediada, ecoou alto.

quinta-feira, outubro 29, 2009

Tribo

Amigos de alguns dias, sentados, olham-se a si, todos vestidos com trapos tão estranhos, tão descoordenados, que parecem fazer parte do último suspiro da moda. Indecisos, sobre o que dizer, se dizer, se calar, bebem. Um deles - o com a grande cicatriz no braço direito, aquele que parece um urso, tanto pelo, tanto tamanho – assoa o nariz no guardanapo que lhe serviram. Dois riem do descomposto homem, outros torcem suas faces em caretas escrotas. Alguém os serve de canapés, enche seus copos. É inicio da noite, e até amanheça, todos estarão bêbados e entretidos com a musica ambiente. Todos saberão as letras das canções que ninguém conhece. Logo, todos serão tão amigos quanto se se conhecessem por toda a vida.

Aquele rapaz de sorriso afável, resmunga afinado, aquém dos outros. Uma mocinha de cabelo picotado vermelho, unhas com esmalte descascado, balança no ritmo, punhos entre as coxas. Conforme a estranheza habitual é absorvida do ambiente, a cantoria murmurada ganha tons show de rock, e performances exaltadas derrubam copos; derrubam corpos. A manhã aquece-os e a mente desperta incerta, sem lembrar o que se estava fazendo ali. A noite eles voltam.

quinta-feira, outubro 08, 2009

Nada para além do adeus

O olhar exigia mais que as palavras podiam expressar. Olhei a parede, que encarar qualquer coisa parecia mais certo que responder. Eu engasguei com meu suco, mas não foi o suco que pôs aquele nó entalado na minha garganta.

Canta alguma coisa.
O que?

Sei lá, acompanha essa música que está tocando.

Eu não sei cantar, e ela sabe disso, como sabe do índice de radiação solar de hoje, meu índice de massa corpórea, o índice de desmatamento na região amazônica. Sou incapaz de pensar em algum índice que ela não tenha conhecimento. É como uma degustadora de fatos.

A música que tocava era Lanterna dos Afogados. Um clássico de alguma adolescência, talvez da do dono do bar. Da minha, não estava certo. Eu ainda tinha seus olhos sobre mim, aquele peso que, um lado masoquista da minha mente, um lado que aprendi a seguir como arremedo da razão, ficava feliz de pensar como sendo a última vez que sentia.

Canta essa.
Eu não sei!
Sabe. Claro que sabe
.

Só porque todos sabem.

Por isso não cantei. Quando disse adeus, eu respondi com um tchau, que era uma epítome de tudo que eu não podia dizer. Agarrei-me na conta fazendo dela meu salva-vidas. Ela sairia pela porta, eu estaria lá, praguejando contra o tempo chuvoso para o dono da bar. Ele me diria adeus, volte sempre, eu nunca mais voltaria. Poderia seguir meu caminho, apertando o casaco no corpo, sentindo a gélida chuva fina, a gélida partida dela. E só.

Ironia da vida, eu estaria feliz todas as vezes que ela entrasse em contato. Sempre parecendo animada com minha felicidade, eu com a dela, mas seria mentira. Porque assim que ela desligasse, os problemas tomariam minha mesa, eu não veria soluções à frente, como nunca vi. Choraria todas as terças, quando por acaso lembrasse que ela foi embora. Só que praticamente nunca lembraria.

Mas passei o cartão, e ela estava lá, me esperando; ofereceu carona, ajeitou meu cabelo que estava na frente dos meus olhos, pondo-o de qualquer jeito atrás da orelha. Agradeci, só porque gritar seria escandaloso. Tudo que esperava era estar enclausurado novamente em meu apartamento, para gritar durante o tempo que me conviesse, que eu nunca amei você. Gritar até a garganta doer, minha goela arder, eu acreditar.

Não houve uma resposta a pergunta, sentirá minha falta?. No futuro, eu sabia, seria difícil sentir. Ficaria cada vez mais frio e alheio, e não me enganei. Ao fechar a porta de seu carro, sorri sem pesar e sem sinceridade. Olhei o carro partir, se demorando para virar a esquina. Depois, ao entrar em casa, puxei o telefone da tomada e desliguei o celular. Só os religuei passados dois dias de sua viagem.

segunda-feira, setembro 21, 2009

Branco

Caminhou descompassada em direção a boca de cena: o tapete branco. Parou intuitivamente esperando algo, que não atinava o que até ouvir os violinos tocarem a marcha nupcial. Agora, em rima com a melodia da canção brega, com o buquê apertado entre as mãos úmidas na altura do peito, ela foi - circunspecta e firme, adiante.

Era só um passo atrás do outro. E outro. E mais um.

E... Arriou o vestido, deixando entrever as pernas brancas e a sapatilha vermelha. Mágico de Oz, se a mágica existe, era o que acreditava. Viu os olhares despreparados dos seus convidados, tentando absorver a imagem. O que aconteceria à seguir? Bem, nem ela sabia.

Minutos suavam entre seus dedos.

Seus dedos. Suas crenças. Suas escolhas.

Virou-se de supetão, girando as vestes. A lembrança latejava em sua mente, fazendo bater mais rápido o coração. E um passo atrás do outro, cada vez mais rápido, ela saiu de lá.

O lá era branco como suas vestes, branco como as flores que adornavam seus cabelos, branco como o espaço vazio em sua alma desde que o perdera.

Mas ele também estava correndo.

sexta-feira, agosto 14, 2009

Aos Pedaços (escrito hoje, em homenagem a um desconhecido)

O tempo está frio. Eu estou lúcido.

Da janela do vigéssimo andar do prédio, olho a avenida – como em várias canções que já ouvi. O personagem sou eu, eu olho os carros e a cidade da janela daquele andar. Meditei qual cantaria, se soubesse cantar.

Toca o telefone, sei quem pode ser aquela hora da manhã. Eu diria alô, e logo seria soterrado pela enxurrada matinal de ideias daquela menina tola. Ela diria poder abrir meus olhos ao fugaz mundo inventivo das imagens, que ela orquestrava. Mas eu estou lúcido, como nunca. Nada mais será inventado.
Arremesso o telefone sacada abaixo, observo-o cair e se fazer em pedaços na calçada ainda vazia. E os pedaços não tem nome. Só tem nome quando fora inteiro.

Acendo aquele cigarro amassado que encontrei dentro do bolso do jeans. Na memória a canção escolhida, nos pés, seu ritmo incerto. Não lembro o ritmo. Penso na garota ingênua que quer abraçar com força tudo que lhe era alheio. Porque tudo é alheio, até o que nos concerne. Eu teria um pasto, com vacas e bodes, mas não saberia da vaca sua grama favorita, não saberia do bode sua cabra amada. Nem saberia se bodes amam. Não sei ao certo se eu amo.

Sinto o frio entrar pelas narinas, solto a fumaça do cigarro. A negação faz bem a uma alma perturbada. Meu celular toca e sei exatamente quem é. Atendo, pois o celular é caro demais para acabar-se na via pública. A garota reclama do meu telefone, eu respondo que estragou, ela brinca dizendo que tudo-estraga-um-dia. Ela diz tempo-frio-não? Frio e despedaçado, como eu. Ela me lê uma frase que, diz, achei-reveladora: “Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade. Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer.”*

Pouso o celular ainda ligado, na cadeira. Termino o cigarro. Olho os carros transitando sem me prender ao olhar. E me atiro da sacada.

Não ouço além do vento que congela minhas orelhas. Antes de chegar ao chão, penso no porque e me lembro. É que pedaços não tem nome.

*Do poema A Tabacaria, de Fernando Pessoa
Daqui: http://caramboladacinderela.blogspot.com/2009/07/30-contos-12-odeio-interpol.html

quarta-feira, agosto 12, 2009

Pela próxima passagem

Baseado no conto “Homens comuns” de Jordana Seixas Alexandre.


Quando não acordou, depois do gritar constante e desafinado do despertador eletrônico, soube – com a certeza mais crua de sua existência simples – que não mais acordaria. Não viu seu corpo molemente estirado sobre a cama, nem a luz fúnebre e esverdeada que tem todas as coisas quando uma alma vai-se embora; não tinha mais olhos para ver o mundo vivente, compreendeu quase imediatamente; estava desligado para sempre do que era terreno.

Adejou seus braços, para abraçar a si, talvez confortar-se a si. Mas não eram braços. Pairando sobre as cabeças dos amores de sua vida, nada viu, mas buscou. A vida não era mais sua, anuiu. De súbito abriu os braços e galgou os céus, como se soubesse o caminho.

Abaixo o cinza tomou conta, borrando as imagens, abstraindo o que não mais lhe pertencia. Ele soube, pela cor, que estavam a volta de seu corpo, chorando sua partida. Embalado pela voz de sua irmã, a canção pedida para o fim, fez um eco doloroso permear o vento entre suas asas:

“Sorri, porque o suspiro de quem se vai, não volta
Cantei para que a passagem seja contigo a vida inteira”*

Em vida, só desejou morrer antes de seus amores, para não sentir a dor da ausência. Morto, só desejou, na próxima ida, ser menos egoísta.

*Música PASSAGEM, de Rosa Silva

sexta-feira, julho 31, 2009

A ironia frágil

Eu queria morrer e pensava nisso. Tinha babatas fritando sobre o fogão, atarefada com as ideias que me assaltavam – tão súbitas, que me faziam esquecer as batatas – e quando voltava a mim, me acertava o cheiro de gordura queimada. Na ânsia de salvar poucas batatas que ainda não haviam dourado ao extremo, eu puxava a frigideira com a agilidade. O óleo quente pulava com certa graça, e acertava em cheio minha mão.

Então eu queria morrer, pensava, quero morrer. Perdia as ideias tão subitamente quanto as tive, e ganhava bolhas, como prêmio de consolação. A dor ardida acordava meus sentidos para a ação, eu fritava outras batatas, após limpar o fogão.

Voltava meus pensamentos para outros afazeres, e descobria sempre haver muitos.

As cores do mundo se colapsavam diante dos meus olhos, meu corpo junto com elas. Eu perdia os sentidos depois de tentar mover, por horas, o sofá de seu lugar. Sem amparo, obrigava meu olhos a se focarem e meu corpo a se mexer. Então, outra vez, pensava que queria morrer. Pois almas não trocam sofás de lugar. Elas nem têm lugar.
Assim, quando me vi ociosa uma tarde, busquei as ideias que perdi. Comecei rememorando sons, cheiros. Nomes. Haviam tantos nomes. Nomes que eu associava a uma vontade de viver que quase não acreditava ter sido minha.

Eu queria morrer e pensava que isso me salvaria de tudo. Inclusive de sofrer por ter lembranças.

Teve esse dia, quando tão súbito quanto ideias me vinham, tão forte como quando os sentidos falhavam, minha temperatura subiu para 39ºC e tossia como se tivesse expulsando minhas tripas. Desamparada, como sempre, alienada e enfraquecida, sentei no sofá da sala, que estava no mesmo lugar de sempre e fiquei. Não esperei a morte, nem sabia que ela vinha. Eu queria morrer, não me tornar estatística.

terça-feira, julho 28, 2009

Tic Tic Tic

Resposta ao conto Tic Tic Tic, de Fred Paiva, no blog http://azulbananafosca.blogspot.com - na verdade uma continuação dele. Sim, apropriação de ideia alheia...

Mario Sérgio tinha dois problemas rotineiros em sua vida (e não contabilizava numerar sua vida como um deles): o som de pigarro do motorista da van com a qual vinha ao trabalho, e o constante tic tic tic arranhado, feito com a bunda da caneta sobre a superfície do bloco de notas de sua colega de trabalho.

O pigarro ele fazia ignorar com fones de ouvido e música alta – não percebendo que gemidos ritmados escapavam de sua boca durante o percurso, e quanto isso incomodava outros passageiros – e tudo ficava bem. Mas aquele método não poderia ser empregado durante o trabalho. Enquanto ela atendia o telefone. Durante as oito horas de tortura em que ela compunha um concerto disparatado e arrítmico, com a bunda daquela bic infernal. Já pensara em processar o fabricante, mas era óbvio que em nada daria. Já pensara em arremessar o peso de papel na cabeça da infame, observar o sangue jorrando, e alcançar a caneta para com a bunda dela friccionar ainda mais o ferimento, buscando um som que lembrasse o tic tic tic, enquanto gritaria numa imitação ainda mais fanha que era naturalmente a voz da mulher, casadasferramentasclaudeteBOATARDE! Bem em seu ouvido, até ela ficar surda, suja de sangue, e com sorte, morta.

A morbidade de seus pensamentos o assustava, às vezes.

Então ela o olha de soslaio, ajusta aqueles úberes avantajados no decote desarmônico, e sorri numa tentativa de graciosidade que não sai da tentativa.

Emprestaumacaneta, Mario Séérgio?

Por todos os demônios, a dela estourou!

Tic tic tic, ele ouve o som que ela faz aguardando a resposta; as mãos delas manchadas de azul, assim como o bloco de notas, parte do seu rosto, e, para total espanto de Mario Sérgio, um significante pedaço da manga da camisa branca dele.

A morbidade de seus pensamentos já não o espantou. Tic tic tic, era o som de sua paciência sumindo, enquanto sentia o peso de papel dentro do punho cerrado.

quinta-feira, outubro 09, 2008

Conto de minuto

Tenho doze minutos.


O que me faz lembrar a angústia de Jacira, a menina sem tempo. Vinha reclamar da demora do acaso em acontecer algo de bom, que de ruim ‘tá sobrando. Não dormia muito para não perder o precioso tempo de espera. Corria coma vida, para ver quem cansava primeiro.


Então um dia, de tanto sacudir a perna, tanto bater a bic na beirada da mesa, e quase parti-la ao meio, o acaso lhe foi bom e breve. Entrou pela sala o homem de seus sonhos, lindo, estarrecedor. E ele a olhou com olhos de fome, arrancando suas roupas. Não era olhada assim desde sempre.


Atravessou a sala, e foi dar na rua. Ali o acaso o fez panqueca embaixo de um carro apressado que atravessava a avenida. Nada, mas nada atraente.


E Jacira não teve tempo de parar o batuque da bic, nem de sacudir a perna, para corresponder com um sorriso a apreciação visual alheia.


Eu tenho. Quatro minutos.

quinta-feira, agosto 07, 2008

Nota

Ligue a TV e veja Alberto. Alberto Dionísio Martins. 37 anos. Cabeça feita pela UNICAMP. Administrador de seus bens – e conseqüentemente de seu destino.


Sim, ele está bem na foto. Apresentável eu diria. O rouge-sangue em sua face deformada combina horrores com o tênis Adidas, comprado na liquidação de inverno do ano passado. Mas a repórter não lhe dirá a marca, para que não o incite a também comprá-la, entende. Importante apenas o Alberto. E seu glóbulo ocular desprendido.


Alberto dizia que cair é inevitável. Ligue sua TV, veja a prova.

quinta-feira, julho 10, 2008

Inconformes - Confissão II

Queria que o acaso explodisse tudo. Sim, o acaso. Aquele enigmático e traiçoeiro que (dizem) permear as grandes forças que movem o universo. Opinião minha: pura balela.
Mas se o acaso, por um acaso, existe, queria que ele explodisse tudo. E levasse com ele todas as metáforas criadas para lhe caber.

sexta-feira, julho 04, 2008

Inconformes - Confissão I

Preciso odiar o que é ameno. Esses seus olhos que tudo aceitam, nada condenam. A conformidade me faz mal ao fígado - acordo tarde, mijo fora da privada, mas quem limpa sou eu!
Sabe aquela coisa de aceitar o próximo? Eu detesto próximos! Detesto que fiquem perto, que afetem minhas narinas com seu cheiro comprado.
Pois eu preciso odiar o que é simplório. Use meu vaso se quiser me acompanhar.

domingo, junho 22, 2008

Ernesto

Cansado de dizer as mesmas coisas, sobre todas as coisas que ele conhecia, de todas as pessoas que ele já sabia o nome, sobrenome, endereço e opção sexual, sobre as tarefas nefastas da vizinha do duzentos e quatro e todas as últimas novidades do velho mundo, Ernesto resolveu se calar.
Decidiu – mérito da vizinha já citada, suas altercações acerca de sua tremenda boca grande – nada dizer, se não questionado. Para quê, pôs-se a conjecturar numa tarde ociosa, gastar saliva, pensamentos, se o que se diz se perde no vazio das coisas, que são tantas, que desaparecem no piscar dos olhos? (Menos, é claro, a fama da vizinha).
Absteve-se de fazer sugestões, puxar conversa, cumprimentar alheios, engrenar uma discussão sobre assuntos diversos.
Primeira semana estranharam sua reclusão e suas monossilábicas respostas. Segunda semana estava em definitivo excluso das fofocas, por sua falta de empolgação. Na terceira semana passou a ser o alvo das conversas no cafezinho.
Disseram que estava sofrendo de depressão. Foi ao psicólogo, como solicitado pelo chefe, mas acha, até o hoje, que deve ter matado o doutor de tédio – três meses de tratamento para ser diagnosticado como sociopata, e nem uma frase significativa dita por ele.
Tomou todos os remédios prescritos, ainda que soubesse não estar enfermo, e passou a rir descontroladamente das pessoas na rua – sem motivo aparente algum.
Ria à noite. Chegava as gargalhadas. Conseguiu diversas vezes acordar meio prédio com os agudos esguichados de seu riso. A vizinha do duzentos e quatro chegou a acionar o manicômio.
Mesmo preso e abilolado, Ernesto manteve sua posição, e nada dizia que valesse.
Morreu só, em meio aos doidos, que, aprendeu a acreditar, eram os que melhor sabiam o que diziam.

quinta-feira, maio 29, 2008

Na noite em que o motor falhou

Andamos nus pela estrada deserta. A lanterna que tínhamos, estava sem pilha, mas não tivemos medo do escuro. Como crianças, rimos da nossa travessura. Respiramos a ar frio da noite. Paramos para ver o dia nascer, por detrás dos prédios lá longe, desenhando com dedos arroxeados o contorno da cidade.

Ficamos, enfim, sérios. Comprometidos com a integridade do mundo à nossa volta. Mas voltamos para casa sem camisa.

segunda-feira, maio 19, 2008

Infalíveis

Sucção - Parte III


Ocorreu um incidente alguns anos atrás, que nos levou a instituir regras em nossa singela sociedade. Pedro, nosso mais caro amigo, assassinou friamente uma bonita garota, em sua cidade natal (a dele, pois a garota vinha do interior do Paraná).
Equivocado em suas convicções, ele nos contou sua suposta façanha como algo memorável. Não obstante sua pretensão foi expurgada, seu ato apagado de nossas histórias, sua posição revogada.
Quando, revoltado (uma característica sua que nos levou a execrá-lo de imediato), exigiu explicações, sucintamente Jeremias respondeu: deixamos aos falíveis sua autoflagelação constante, suas emoções exacerbadas, a animália em suas ações.

sexta-feira, maio 09, 2008

Infalíveis

Sucção – Parte II


Mateus, o mais espirituoso de nós todos, era dono de uma peça rara: Um eurrítmico, porém pouco usado, cadafalso. O tinha no centro de uma sala espaçosa em sua mansão.

Quis por muitos anos usá-lo, em apreciação às vidas que o objeto tirara no passado. Engenhoso, colocou seu cadafalso à disposição de qualquer um que quisesse uma morte conceitual e peremptória.

Uma tempestade de mensagens on-line quase o pôs em prantos de tanto rir. Filtrou os candidatos por características que o agradavam – péssima constituição física, falta de amor na vida (a sua preferida!), rejeição.

Depois de várias trocas de e-mail, Elaine, 130kg, 29 anos, nenhum casamento, nenhum namorado, expulsa de casa pelos pais aos 16 anos, apareceu, arredia, na mansão de Mateus. Conversaram banalidades, beberam - ele impassível, ela relaxando – sem se aterrem demais ao que os trazia ali.

Duas horas depois Elaine se debatia pendurada pelo pescoço, gemendo seu adeus à existência física.

Mateus subiu o cadafalso, tomou a boca arroxeada do cadáver entre seus lábios, e declarou seu amor incorruptível àquela imagem.

sábado, abril 26, 2008

Infalíveis

Sucção – Parte I


Um trem descarrilou no México e os urubus tomaram seus postos sob. A rebordosa trouxe em instantes, os urubus-brejeiros, aqueles que habitam salas refrigeradas e usam de câmeras e microfones, ao invés de bicos.
Ananias pegou o primeiro avião para lá. Chegou a tempo de se deleitar com o panorama da catástrofe; com a sorte que lhe é inerente, encontrou mãe, filhos e outros parentes aguardando a retirada dos corpos. Uma garota desmaiou em seus braços ao ver o pai carregado pelos robustos bombeiros. Ele a acariciou, feliz, e lhe deixou seu casaco – em agradecimento à sublime finalização daquele dia.

domingo, abril 13, 2008

Infalíveis

Psicopatia Alienígena – Parte IV


A obviedade nos torna parte da falência humana. Nutrir-se do que se desgasta é escolher padecer antes do tempo.
Devoramos o que sobra, sugamos o que o mundo nos oferece às pampas: a exasperação, o ódio, a crueza da realidade.
Assim nos tornamos infalíveis.