Olhei para o teto, sem cor definida, riscado de giz de cera, sarapintado de mofo: ele tem razão, pensei. “A dor é apenas outra forma” - como várias - e tão irrepreensível quanto.
Peguei papel e caneta, debrucei-me curvada sobre a mesa da cozinha, disposta a por no papel qualquer conjunto de palavras alegres, que retratassem talvez minhas zonas de conforto, talvez a nostalgia da infância. Nada que pudesse querer para o futuro.
Minhas certezas e dores presentes abriam aquele buraco largo e sem fundo, que impedia meus pensamentos de buscarem além.
“Bati quatro vezes a caneta sobre o tampo da mesa antiga. Ergui-me e fui ao meu quarto, de volta ao teto sem cor definida.”
Vinte e seis anos depois e é assim que me explico a vida.
E tudo não passa de teoria.